Por Sarah Adamopoulos (texto) e Céu Guarda (fotos)
Ontem escrevi sobre o quotidiano horroroso que era preciso surpreender e afugentar para longe (ao menos durante uns dias), e sobre como isso precisa de ser feito através de mudanças operadas na cidade. Referi o rosto que o antigo Palácio do Patriarcado tem ao longo destes dias em que a sua função é ser o Lugar do TODOS – um lugar em que cabem também quatro exposições de Fotografia que espelham a diversidade do Mundo retratada em Lisboa (Luís Pavão), a caminhada do capitalismo e a aceleração da História no território da China (Paolo Longo), o silêncio do Hospital Miguel Bombarda (Rosa Reis subtil, sem fazer barulho) e ainda visões dos dias em que os fazedores do TODOS sonharam este momento de Setembro em que a cidade é mais que nunca desocultada (Maurizio Agostinetto).
Os lugares mais secretos de Lisboa
Referi ontem, também, o antigo quartel da GNR (e ainda mais antigo quartel de um esquadrão de cavalaria) onde um estranho piquenique acontece todos os dias do TODOS pelas oito da noite – sendo o público guiado para ponto incerto do quartel, a que a penumbra do dia subitamente obscurecido dá forma fantasmagórica. Lá vamos, num misto de excitação e incerteza, na dúvida de não estarmos porventura a seguir para algum abate. Velhos edifícios e lugares habitualmente secretos da cidade transformam-se por obra e graça dos fazedores do TODOS em salas de espectáculos e/ou lugares abertos a ser visitados, integrando as suas habituais funções no âmbito da programação do Festival, ou abrindo as suas portas há longo tempo fechadas, permitindo que todos possam entrar neles, muitas vezes pela primeira vez.
Um desses primeiros lugares é o Instituto de Medicina Legal e Ciências Forenses, antiga morgue que ontem proporcionou ao público do TODOS uma visita ao seu pequeno núcleo museológico, onde jazem memórias materiais de crimes de toda a sorte e também de faca&alguidar – por vezes cometidos com recurso a improváveis armas. É no entanto na segunda categoria de lugares – os mais secretos, por estarem afectados a instituições específicas ou abandonados à suave voragem do tempo – que acontecem alguns dos espectáculos do TODOS. Ontem vi dois muito diferentes, no lugar imenso e impecavelmente ordenado da que foi a primeira escola de ensino militar do Exército em Portugal: a Academia Militar, por onde passaram e passam ainda incontáveis formandos, ali tornados oficiais de Artilharia, Engenharia, Infantaria e Cavalaria.
Rebobinar e voltar a dar
Gentileza de um Gigante, pelo encenador brasileiro Gustavo Ciríaco, aconteceu ontem numa oficina recôndita da Academia Militar. O espectáculo – na fronteira entre o teatro visual, a dança contemporânea e a performance – mostrou dois seres nus (um casal de gigantes) sentados a uma mesa em cima da qual construíram e destruíram com as mãos vários mundos minúsculos que evocaram as evoluções da Terra, com os seus cataclismos naturais e outras convulsões. Momento delicado, silencioso e contemplativo, de grande beleza visual, teria ganhado em aproximar-se do público possibilitando com maior acuidade a apreensão das intenções dos demiurgos – através da utilização dos processos da Intermédia. Processos a que o espectáculo Bobines, pela companhia francesa Attraction Céleste, não se furtou, construindo com inexcedível engenho e arte um dos mais belos momentos desta edição do TODOS.
Apresentando-se num ginásio da Academia cuja linguagem arquitectónica evoca a do ginásio do Liceu Camões (actual Escola Secundária de Camões, por onde o TODOS também passa), Bibeu e Humphrey (Servane Guittier e Antoine Manceau), palhaços músicos, partilharam vídeos da sua vida clownesca com o público, cruzando-os com os vários e diferentes momentos da sua actuação, numa engenhosa ubiquidade de grande poética. Envolvendo na performance vários elementos do público, o casal de palhaços fez trinta por uma linha, pedindo emprestados (eufemismo para as diversas subtracções de objectos a que literalmente deitaram mão) relógios, telemóveis e até mesmo sapatos (!), num crescendo de grande comicidade e partilha. Hilariante o momento em que Bibeu, coquette, se entrega a um momento de vaidade feminina e cobiça, sem conveniências que numa palhaça não fariam qualquer sentido, diferentes pares de sapatos, descalçando algumas mulheres do público para experimentar esse calçado e depois trocando-lhes os sapatos.
Cozinhas Paraíso
O dia de ontem terminou para nós nas cozinhas paradisíacas instaladas numa casa apalaçada da Rua Gomes Freire, onde diferentes culturas dos cinco continentes se fazem representar, distribuindo-se por outras tantas salas em que cozinheiros caseiros habitantes de Lisboa são os anfitriões de viagens por sabores que celebram a vocação viajante e intercultural do TODOS – convidando as pessoas para experiências gastronómicas únicas. À entrada do nº 98 da Gomes Freire, uma guineense apregoava sumos de frutas de África feitos por ela. Imperdíveis – ela e os sumos.
Sarah Adamopoulos e Céu Guarda acompanham o Festival TODOS pela primeira vez e produzirão um diário escrito e fotográfico entre os dias 9 e 12 de Setembro. A abordagem é autoral e pretende documentar, numa perspectiva distanciada e assumindo escolhas, momentos significantes da edição de 2016 da Caminhada de Culturas.

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