ESPREITAR TODOS – DIÁRIOS 1
Por Sarah Adamopoulos (texto) e Céu Guarda (fotos)
O quotidiano
Havia o quotidiano, ali absorto e sempre igual, ou parecido, ininterruptamente a voltar dia após dia, como um jornal diário que sai todos os dias com as mesmas notícias, independentemente da nossa vontade. Havia o quotidiano com as suas horas ditas de ganhar a vida – como se a vida não a tivéssemos já ganho no dia em que nascemos – em número e em sequências de gestos antecipadamente sabidos. Sinónimo de banal, o quotidiano contém um ingrediente mortal: a platitude. Para escapar-lhe, é preciso fazer qualquer coisa. Sonhar com viagens distantes, e depois realizá-las logo que possível. Ou então conhecer outros – diferentes dos iguais a nós ou parecidos connosco – pois há nessa alteridade uma viagem (até ao outro) que nos arranca ao quotidiano.
Assim sendo, e como fosse preciso fazer qualquer para surpreender o quotidiano, apanhando-o distraído na sua intolerável mesmidade, mudaram-se coisas na cidade – abrindo espaços quotidianamente fechados, como o antigo Palácio do Patriarcado, no Campo Mártires da Pátria, ou o antigo Quartel da GNR, no Largo do Cabeço da Bola. Tudo começa na cidade, criação do espírito humano cuja forma e funções a era pós-industrial tornou necessário repensar. Como sempre na História do Mundo, os artistas antecipam-se e agem, havendo até mesmo quem tenha chegado ao quotidiano acompanhado por um cavalo (!), como aquela mulher um pouco centauro que estávamos à espera de ver no Jardim do Campo Santana.
Mulher com cavalo
Era uma mulher cujo passado ninguém conhecia, vinda sabia-se lá ao certo de onde, que chegava de armas e bagagens e um cavalo (!) e se instalava no meio da cidade – no jardim onde doravante exporia ao nosso voyeurismo os gestos de um quotidiano totalmente insólito, lavando-se, alimentando-se, correndo e até mesmo discutindo com o cavalo. E às seis e meia da tarde, depois de toda a gente os ter visto naqueles preparos ao longo do dia, surpreendendo um quotidiano em que naturalmente não tinham qualquer cabimento, a mulher e o cavalo dançavam juntos no Campo Santana. Talvez não exista uma outra ideia tão improvavelmente poética como a de uma mulher e de um cavalo que existem juntos numa grande cidade ao longo de 24 horas.
Não esqueço que há gente para tudo, tão-pouco que haveria desafios de considerável maior dificuldade para essa dupla agindo sobre a realidade quotidiana da grande cidade que é Lisboa: por exemplo, fazer juntos a travessia do rio, em direcção à sua margem sul, num cacilheiro. Mas realmente não posso esconder o desapontamento que senti quando soube que a performance primitiva (ou coreografia de rua, hesito sobre qual das descrições escolher) da Compagnie Salem Toto, pela dançarina equestre Eva Schakmundès e pelo seu cavalo cujo nome desconheço, não se realizará devido a doença grave do cavalo.
Palácio de TODOS
Oficialmente iniciada no antigo Palácio do Patriarcado, momentaneamente chamado Lugar do TODOS (que nome lindo, de grande objectividade e justeza poéticas, também), a 8.ª edição do Festival TODOS arrancou ontem com a inauguração de um conjunto site-specific de exposições que foram ocupar as salas abandonadas do palácio. De edificação original setecentista, tendo constituído morada do Patriarca de Lisboa D. António Mendes Belo (o antecessor de Cerejeira) depois de em 1913 o Patriarcado ter alugado a parte do edifício que então pertencia à Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, em 1926 a instituição diocesana veio a tomar posse da totalidade do palácio. Apesar da distância temporal que já levam, as grandes obras de beneficiação então levadas a cabo (replicadas, no todo ou em parte, em 1931, 1939, 1948, 1965, 1972 e 1995) explicam o bom estado geral do belo palácio eruditamente barroco.
É nesse lugar que estão as fotografias de Paolo Longo (retratos do quotidiano de desigualdades extremas na China capitalista, entre os quais podemos entrever uma família em cuja casa – hoje equipada com a panóplia habitual de electrodomésticos – havia apenas uma única lâmpada em 2010), de Luís Pavão (retratos de ganhar a posteridade ou de perder a alma, consoante a perspectiva, que inscrevem na memória de Lisboa uma pequenina parte das tantas famílias interculturais que actualmente a habitam), de Maurizio Agostinetto (visões subtis dos corpos dos fazedores do TODOS, nos dias de imaginar o Festival com o espírito enfiado no desejo de surpreender o quotidiano) e ainda de Rosa Reis (aparições únicas do Hospital Miguel Bombarda, por um dos nomes mais significativos da Fotografia portuguesa contemporânea documental e autoral).
Paradise Inc.
Vindos do Lugar do TODOS, atravessando o Jardim de Santana (onde há galos de grande ruralidade que cantam a todas as horas) e passando pelo Paço da Rainha, acede-se ao antigo Quartel do 2.º Esquadrão do Regimento de Cavalaria, posteriomente afectado à Guarda Nacional Republicana, onde um piquenique é servido todos os dias pelas 20h00. A refeição (de iguarias inacreditáveis e tão boas) é assegurada pela Paradise Inc. (uma empresa que leva de volta a Natureza à boca de cada consumidor), com a colaboração esforçada de um capataz que fala na Língua dos mais capazes capatazes da indústria alimentar Global. Inspirado num quadro tríptico dos comecinhos do século XVI (O Jardim das Delícias Terrenas, do pintor holandês simbolista Hieronymus Bosch), trata-se de um espectáculo de teatro culinário que põe em cena, com recurso a espantosos engenho e arte performáticos, o paraíso e o inferno de um mundo entregue à mais abjecta e vertiginosa depredação humana.
Sarah Adamopoulos e Céu Guarda acompanham o Festival TODOS pela primeira vez e produzirão um diário escrito e fotográfico entre os dias 9 e 12 de Setembro. A abordagem é autoral e pretende documentar, numa perspectiva distanciada e assumindo escolhas, momentos significantes da edição de 2016 da Caminhada de Culturas.
Publicado por Festival TODOS às 09-09-2016 14:55
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